Sirvo-vos uma bandeja de ossos e pele, que é tudo o que tenho.
Os órgãos dei-os aos dias.
Tudo o que era vivo consumido pelo lume brando das horas mortas.
De todas as horas em que esperei sentada pela revolta que nunca foi.
Nada mexeu. Nem o mais pequeno dos dedos.
Celebro a morte serena dos mitos, das crenças.
O dia em que enterrei o credo e dei a boca ao verbo.
Enterrei os pés na areia e rendi-me a esta vida em forma de concha.
Pronta a guilhotinar quem ousar querer tocar-me o núcleo.
Não quero mãos veneno externo a contaminar. A sujar de vida o meu coma macio.
São quilos de algodão e seda em que descanso. Enrolada sobre coisa nenhuma, na paz do vazio sem mancha.
Tudo muito imaculado. Tudo muito longe.
Deixem dormir os convalescentes, acordar provoca escoriações.