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Thursday, September 06, 2007
são dois pinceis a pintar de luz os dias
duas penas a fazer [-me] cócegas ao mundo
Os dois pontos que transformaram em reticências um final sem glória.
Posted at 01:51 pm by galapogos
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Tuesday, August 07, 2007
Praia-mar, baixa-mar, praia-mar.
Vejo todos os dias a maré chegar e partir. Sobe, percorre a areia, entranha-se nela e regressa. Aprecio os movimentos e os desenhos que imprime em meia areia. Traça um horizonte longitudinal, chega só a meia praia. A outra meia é toda minha, e intocada. Quando quero chegar à água, atravesso-a depressa, para não conspurcar de humanidade esse santuário branco. A água renova-se 2 vezes a cada 24 horas, suporta bem o que as minhas glândulas sudoríparas cospem, numa tentativa infrutífera de se livrarem de mim. Mergulho no azul os despojos dos dias, em busca de uma absolvição que nunca sinto. Mas insisto. A minha esperança é renovada a cada manhã em que as árvores dos meus olhos encontram esse azul imenso defronte da janela. Quero, desesperadamente, intentar uma fotossíntese impossível dessa cor, da paz e do frio. Senti-los vibrar-me nas veias. Ser toda água ciclo: praia-mar, baixa-mar, praia-mar. Guardar perene o arrepio das primeiras gotas sobre as costas depois do sol, e a sensação de pertença de submergir e sentir [-me] em estado líquido. Gelar-se-me o corpo e a alma, se é que existe semelhante coisa. Uma indulgência de mim para comigo. O abandono possível e uma espécie de regresso a casa. Não sei de onde me vem este conforto pela água. Não sei se é possível que sejam saudades do útero de um dia. Não sei se é razoável questionar-me a respeito de uma memória recalcada desses 9 meses em que fui peixe. Sei que me sinto genuinamente feliz e limpa quando tudo o que posso sentir é fluído.
Olha, chamem-me alcoólica.
Posted at 03:26 pm by galapogos
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Friday, July 27, 2007
da inevitabilidade dos fins.
Há dias em que compreendo. Aceito. Entendo.
Porque pairo, sinto-me maior. Acima das dúvidas, dos presságios, Da nuvem negra que nubla a vida e turva a vista.
Acredito. Acima das perspectivas, da lei das probabilidades. Da inevitabilidade dos fins.
Contigo, Quero ser sempre meio.
Posted at 09:27 am by galapogos
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Saturday, July 14, 2007
Amo-te mais quando sorris.
Amo-te mais quando sorris.
É egoísta, bem sei.
Deve-se ao prazer que me proporciona ver-te feliz.
E à incapacidade que tenho em lidar com a minha impotência relativamente ao teu outro estado. Mais cinzento. Menos acessível. Que faz caroços na garganta e pesa no peito. E me impede de alcançar-te, aquecer-te, apertar-te.
Amo-te mais quando carregas os meus restos agarrados nas pregas da saia. Quando me deixas pertencer-te.
É egoísta. Querer-te também pelo que quero de mim em ti.
É egoísta querer-me e sentir-me os meus desenhos nos teus olhos e a forma como me vês. Que é melhor que aquilo que na realidade sou.
Posted at 03:31 pm by galapogos
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Friday, June 29, 2007
Maria, ou outro nome qualquer.
Um dia acordou e percebeu que a sua sala interior tinha diminuído de tamanho. Ía
diminuindo.
Constatou: as paredes encolhiam um milímetro por segundo. A cada deslizar de ponteiro conquistavam um pouco mais do que costumava ser o seu espaço, confinando-a a um corpo cada vez mais pequeno. Manifestamente insuficiente para contê-la toda. Os movimentos, que costumavam ser fluídos, tornaram-se lentos, viscosos, comprimidos num lugar
exíguo.
O fósforo da vontade, motor das demandas, apagara-se-lhe no peito. Havia pouco que pudesse fazer. Na ausência de luz, a escuridão frutificou. Deu terreno ao avançar dos muros. Deu os braços às correntes e os pés aos
grilhões.
Bebeu da dúvida, que consumira já o oxigénio daqueles tecidos-parede de tijolos-osso, e sufocou no
fim.
Posted at 07:58 am by galapogos
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Sunday, June 17, 2007
Demasiado feliz para me sentir eu, sinto-te só a ti. Em cada órgão do meu corpo teu. Máquina de guerra que foi. É agora macio, para acolher-te. Para que te não assuste a minha crueldade. Monstro, que sou no íntimo. Forjado na aspereza dos dias, que me fizeram assim. Não escolhi ser uma bestinha. Ouvi só as entranhas revoltas com tudo em redor. Avessas à vida e aos outros. Teci esta armadura da pele, que me traía tantas vezes. Pela boca morre o peixe. Fiz-me aço. Guardei tudo o que era vivo numa caixinha. Que abro agora. Diante dos teus olhos armadilha. Cai-me a máscara. Dá-se o degelo. Aqueces tudo. Tenho o sangue a ferver nos canais. Leva-te a todo o lado. Todo este contentor humano cheio de ti. E os músculos doridos do ácido desse corpo estranho que se lhes entranhou na massa. A ceder. Aceder. Assentir sentir.
Posted at 01:29 pm by galapogos
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Wednesday, June 06, 2007
Olho-me para dentro e pergunto:
- Está aí alguém?
Respondo-me que não. Emigrei. Ficou só espaço máquina inactiva. Engrenagens calcinadas pela ausência de vida. Falta de gritos-gargalhadas-lágrima que oleiem este metal frio, que se me colocou no lugar do corpo adolescente a explodir de vontades.
Escolhi emigrar. Sou mais fácil de gerir à distância. É-me mais fácil gerir a distância. O calor dos outros desvia-me.
Posted at 08:53 am by galapogos
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Friday, May 11, 2007
Sirvo-vos uma bandeja de ossos e pele, que é tudo o que tenho. Os órgãos dei-os aos dias. Tudo o que era vivo consumido pelo lume brando das horas mortas. De todas as horas em que esperei sentada pela revolta que nunca foi. Nada mexeu. Nem o mais pequeno dos dedos.
Celebro a morte serena dos mitos, das crenças. O dia em que enterrei o credo e dei a boca ao verbo. Enterrei os pés na areia e rendi-me a esta vida em forma de concha. Pronta a guilhotinar quem ousar querer tocar-me o núcleo.
Não quero mãos veneno externo a contaminar. A sujar de vida o meu coma macio. São quilos de algodão e seda em que descanso. Enrolada sobre coisa nenhuma, na paz do vazio sem mancha. Tudo muito imaculado. Tudo muito longe.
Deixem dormir os convalescentes, acordar provoca escoriações.
Posted at 12:44 pm by galapogos
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Saturday, April 21, 2007
Não, não estou aí
onde me procuras.
Não estou onde me queres.
Estou semi perdida,
semi partida,
Nalgum lugar que ficou para trás,
antes ainda da tua chegada.
Envolta em vácuo,
envolta em nada.
Que foi onde me deixaram,
nalgum lugar.
Enquanto esperava,
a tua chegada.
Posted at 09:45 am by galapogos
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Wednesday, March 21, 2007
Coma nenhum vai calar esta voz,
Estes bichos aos saltos no meu peito.
A abstracção só existe nas minhas fantasias,
A realidade é activa e persistente
E dura e áspera.
Não consigo fugir à dúvida
À incerteza
Ao erro
Não, nunca vou sossegar.
Não está em mim a paz,
O meu âmago é inquieto e combativo
E faz-me intrépida e hesitante,
Louca sensata
Enclausurada numa gaiola de incertezas
Quase confortável,
Quase minha...
Mas da qual procuro sempre escapar.
Galapogos
Posted at 03:27 pm by galapogos
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