Entry: Alegoria da concha Friday, May 11, 2007



Sirvo-vos uma bandeja de ossos e pele, que é tudo o que tenho.
Os órgãos dei-os aos dias.
Tudo o que era vivo consumido pelo lume brando das horas mortas.
De todas as horas em que esperei sentada pela revolta que nunca foi.
Nada mexeu. Nem o mais pequeno dos dedos.

Celebro a morte serena dos mitos, das crenças.
O dia em que enterrei o credo e dei a boca ao verbo.
Enterrei os pés na areia e rendi-me a esta vida em forma de concha.
Pronta a guilhotinar quem ousar querer tocar-me o núcleo.

Não quero mãos veneno externo a contaminar. A sujar de vida o meu coma macio.
São quilos de algodão e seda em que descanso. Enrolada sobre coisa nenhuma, na paz do vazio sem mancha.
Tudo muito imaculado. Tudo muito longe.

Deixem dormir os convalescentes, acordar provoca escoriações.

   2 comments

queen of the highway
June 1, 2007   08:51 AM PDT
 
faço-te companhia na concha... tambèm eu nao quero acordar do meu expansivo e tao interno sonho.

somedays I should just wear a sign that says... do not disturb

a tua escrita é deslumbrante, espero que em breve troquemos textos e palavras e me voltes a ensinar a poesia da minha lingua.
groze
May 12, 2007   01:37 PM PDT
 
Sem saber bem o que dizer, e após passar tanto tempo a olhar para as tuas palavras sem encontrar ao certo as palavras com que responder ao texto, digo-te apenas que está fantástico. Não é apenas uma das melhores coisas TUAS que li nos últimos tempos: é uma das melhores coisas que li nos últimos tempos. Tenho dito.

Aqui se prova o grande que és. E eu, que sempre o soube, sorrio - se fumasse, seria atrás de um cigarro cúmplice.

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