Entry: Praia-mar, baixa-mar, praia-mar. Tuesday, August 07, 2007



   Vejo todos os dias a maré chegar e partir. Sobe, percorre a areia, entranha-se nela e regressa.
   Aprecio os movimentos e os desenhos que imprime em meia areia. 
   Traça um horizonte longitudinal, chega só a meia praia. A outra meia é toda minha, e intocada. Quando quero chegar à água, atravesso-a depressa, para não conspurcar de humanidade esse santuário branco. 
   A água renova-se 2 vezes a cada 24 horas, suporta bem o que as minhas glândulas sudoríparas cospem, numa tentativa infrutífera de se livrarem de mim. 
   Mergulho no azul os despojos dos dias, em busca de uma absolvição que nunca sinto. Mas insisto. 
   A minha esperança é renovada a cada manhã em que as árvores dos meus olhos encontram esse azul imenso defronte da janela. 
   Quero, desesperadamente, intentar uma fotossíntese impossível dessa cor, da paz e do frio. Senti-los vibrar-me nas veias. Ser toda água ciclo: praia-mar, baixa-mar, praia-mar. 
   Guardar perene o arrepio das primeiras gotas sobre as costas depois do sol, e a sensação de pertença de submergir e sentir [-me] em estado líquido. Gelar-se-me o corpo e a alma, se é que existe semelhante coisa. Uma indulgência de mim para comigo. O abandono possível e uma espécie de regresso a casa.
   
   Não sei de onde me vem este conforto pela água. Não sei se é possível que sejam saudades do útero de um dia. Não sei se é razoável questionar-me a respeito de uma memória recalcada desses 9 meses em que fui peixe. Sei que me sinto genuinamente feliz e limpa quando tudo o que posso sentir é fluído.

      Olha, chamem-me alcoólica.

   3 comments

..
August 9, 2007   01:49 AM PDT
 
Que flagelo?
Galapogos
August 8, 2007   01:52 PM PDT
 
sempre o flagelo.
..
August 8, 2007   01:28 AM PDT
 
"Não sei se é razoável questionar-me a respeito de uma memória recalcada desses 9 meses em que fui peixe".
que bonito :)

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